Jayme Buarque de Hollanda, do INEE: Apagão ou Piscão ?
O artigo a seguir foi publicado no início de 2005 e permanece bem
verdadeiro na conjuntura atual, razão porque é republicado. O
Instituto Nacional de Eficiência Energética vem, há muitos anos,
preconizando o uso da geração distribuída e cogeração como alternativa
viável à geração centralizada, tendo inclusive sido um dos fundadores
da WADE - World Alliance for Distributed Energy e patrocinado a
criação da COGEN Rio, instituição formada por empresas do setor de
energia ligadas por um objetivo: o fomento da atividade de
cogeração.
Palavras mal usadas já foram a causa de guerras e muito sofrimento. É
um pouco o que está acontecendo agora com o setor elétrico brasileiro,
que vive um inferno astral em torno da palavra "apagão" desde o início
de 2005.
Tudo começou com uma interrupção do suprimento, no primeiro dia do
ano, e que, por pouco mais de uma hora, manteve os estados do Rio de
Janeiro e do Espírito Santo sem energia elétrica. Eleita pela imprensa
para descrever o ocorrido, a palavra "apagão" tem sido uma permanente
fonte de dor de cabeça para políticos e dirigentes do setor elétrico
que afirmaram que o episódio não se repetiria.
Infelizmente e, para o deleite de quem tem consciência de que uma
declaração dessa não se faz, acabaram sendo contraditados outras vezes
pelo mesmo tipo de acontecimento, que voltou a se manifestar logo em
seguida, várias vezes. Acredito que a raiz dos problemas está na
palavra "apagão". Até o início deste século, a palavra era usada para
designar uma falha do sistema elétrico e que atingia uma área extensa,
como o que aconteceu no início do ano.
Quando, em 2001, a crise de falta de energia foi anunciada, talvez por
falta de uma palavra que caracterizasse aquela situação inusitada, a
imprensa adotou o "apagão", embora aquele período de exceção não tenha
sido caracterizado por interrupções importantes de
fornecimento.
Sentidos múltiplos para uma mesma palavra existem, mas não criam
dificuldade, pois é possível perceber a diferença no teor do discurso.
Todos sabem diferenciar, por exemplo, a palavra "manga" quando
empregada como parte de uma roupa, peça do lampião ou, ainda, como
fruta. O problema com a palavra "apagão", no entanto, é que os dois
sentidos se aplicam a assuntos do setor elétrico, um para designar uma
ocorrência com duração relativamente curta e, outro, mais estrutural e
problemático em longo prazo.
Como o novo uso de "apagão" para descrever uma situação de escassez já
está consagrado, a solução para evitar a confusão seria a criação de
uma nova palavra para caracterizar eventos como os que aconteceram
neste início de 2005. Eu proponho a criação da palavra "piscão". Não é
preciso ser um grande cientista do setor elétrico para perceber que os
"piscões" acontecerão sempre por fatores meteorológicos, defeitos nos
equipamentos, falha humana etc.
Assim, ninguém precisa dar declaração quanto ao final dos piscões. De
qualquer forma, cabe perguntar se é possível combater piscões ou, pelo
menos, reduzir seus efeitos na medida que falhas que tiram do ar
alguns quarteirões raramente chegam a ser notícia. Na visão
tradicional do setor elétrico, a saída passa por construir mais linhas
de transmissão, inclusive redundantes, além de novos e mais
sofisticados sistemas de controles. O problema deste tipo de solução é
que, além de encarecer os custos de transmissão, que já tem preços
muito altos, aumenta a complexidade e "espraiamento" da rede formada
por longas linhas de transmissão.
Para se ter uma idéia, o sistema de linhas de transmissão no Brasil é
tão longo que, se fosse transportado para a Europa, iria de Lisboa a
Moscou, cobrindo boa parte do velho continente, mas atendendo apenas
uma potência equivalente à da Inglaterra. Com estas extensões, os
riscos de problemas no fornecimento aumentam e estão sujeitos a se
propagar afetando solidariamente muitas partes do sistema.
A melhor solução, em minha opinião, é seguir na direção oposta,
aumentando a geração junto às cargas, ou seja, recorrer à Geração
Distribuída (GD). A nova figura foi finalmente introduzida no novo
modelo do setor elétrico e se deveria prestar mais atenção aos seus
benefícios. Por serem inevitáveis, os "piscões" vão sempre acontecer,
só que, com a introdução da GD haverá a redução das áreas afetadas e a
interrupção de fornecimento poderá ser limitada a alguns quarteirões
ou bairros.
Como são localizados, os "piscões" poderão ser mais facilmente
resolvidos e raramente se transformarão em notícia. Os dirigentes não
acordaram ainda para o fato de que tornar o sistema elétrico mais
racional é bom até para o marketing do governo.
O artigo "A culpa do apagão", dos professores DAVID ZYLBERSZTAJN, e
AFONSO HENRIQUE SANTOS, publicado no Globo em 19 do mês passado,
enfatiza esta solução. Clique aqui.
Jayme Buarque de Hollanda é Diretor-geral do INEE e Presidente do
Conselho Diretor da ABVE.
Fonte:INEE
02/12/2009